A realidade do Rio

A folha de pagamento de janeiro de 2017, comparada à de dezembro de 2016, cresceu 0,04 %, devido a aumentos concedidos antecipadamente

Marcelo Crivella***, O Globo

Recebi a prefeitura com R$ 790 milhões em caixa, recursos do Tesouro. Mas as obrigações somavam R$ 1,1 bilhão. O ano de 2016 nos deixou, portanto, um déficit de mais de R$ 300 milhões.

Em 2017, o explosivo aumento do custeio, dos encargos da dívida e da folha de pessoal levaram as despesas a R$ 29,5 bilhões. A previsão de receita é de R$ 26,3 bilhões. O déficit é de R$ 3,2 bilhões.

A par disso, encontrei 132.541 solicitações pendentes na Saúde, sendo 47.533 cirurgias. E houve um aumento de 38% na demanda nos hospitais do município devido à crise do estado. Assim, outra coisa não me cabia, senão cortar despesas, tentar aumentar a arrecadação e negociar o pagamento dos empréstimos.

No primeiro dia de governo, por decreto, fiz o corte de 1.542 chefias e não me consta que nas últimas décadas tenha havido um prefeito com tão poucas secretarias. Reduzi de 28 para 12. Isso resultou numa economia anual de R$ 60 milhões. Mas, ainda assim, a folha de pagamento de janeiro de 2017, comparada à de dezembro de 2016, cresceu 0,04% devido a aumentos concedidos antecipadamente.

É preciso arrecadar mais. Dos 1,9 milhão de imóveis cadastrados, 1,1 milhão não pagam IPTU. É urgente rever isso, como também negociar o ISS, considerando a possibilidade de receber parte da dívida em serviços, como por exemplo em consulta, exame e cirurgia dos planos de saúde.

É tempo de fazer mais com menos. É preciso priorizar as pessoas, e a maior riqueza de alguém é sua saúde. Por isso, realizamos o primeiro mutirão nos hospitais. Foram 80 cirurgias no fim de semana, muitos há mais de um ano de espera. Cuidamos da organização das filas; parcerias com os hospitais federais; chamamento das filantrópicas; convocamos 500 enfermeiros para os hospitais da rede poderem maximizar a capacidade instalada de realizar cirurgias.

Na segurança, a Guarda Municipal, em parceria com a Polícia Militar, colocou mais agentes na orla, coibindo arrastões e furtos. A tarifa dos ônibus não subiu. Cortamos milhares de cargos de confiança para convocar dois mil professores e profissionais da área de saúde.

Mas não terei nenhum problema para explicar à opinião pública as dificuldades do governo. A população entende que governar é muitas vezes contrariar interesses quando eles se sobrepõem ao do coletivo.

Só lembro que, via de regra, os inconformados se utilizam da injúria, da calúnia e da difamação. Peço a todos compreensão e paciência.

Não se pode colocar em risco as finanças da cidade, das quais dependem 197 mil famílias de servidores, aposentados e quem precisa de serviços públicos de qualidade.

E claro que nem tudo no nosso passado são equívocos, nem tudo no futuro são incertezas. Estamos preparando diversas parcerias com a iniciativa privada que vão gerar milhares de empregos. Em breve, faremos um grande programa de regularização fundiária. Estamos também colocando para funcionar todas as clínicas da família e vamos cuidar de cada escola antes de construir novas unidades.

A crise é grande, mas não é maior, e nunca será, que a disposição inegociável de superá-la custe o que custar.

Rio de Janeiro na bancarrota (Foto: Arquivo Google)

***Marcelo Crivella é prefeito do Rio.

Artigo escrito com dados da controladora-geral do município, Márcia Andréa dos Santos Peres

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